Não é preciso sofrer sempre… para sempre!

Não é preciso sofrer sempre… para sempre!

“É uma dor que me acompanha sempre” (sempre?)… “como um vazio, uma dor, algo que não pode ser descrito”… (é uma dor ou um vazio? Ou é o vazio que dói?).

Sempre… (quer dizer a toda a hora), nunca… (quer dizer em tempo nenhum) são palavras que utilizamos de forma banal, natural e com frequência; usualmente reflectem as lentes que usamos para ver e posteriormente analisar o que nos rodeia e as nossas experiências e vivências interiores… os nossos sentimentos e comportamentos serão por isso influenciados pelo que passa através destas lentes (por exemplo se estiver concentrado na leitura deste texto, não se apercebe da imensidão de estímulos que estão à sua volta; ou se estiver desejoso por comer doces, dificilmente reparará em alfaces).

«Sempre»… «Nunca»… são porém palavras enganadoras, principalmente quando aplicadas a algo que se altera, adapta e pode ter (consoante os momentos) intensidades diferentes … as nossas experiências emocionais.

O mundo das emoções é complexo e não obedece a grandes regras (embora nós assim o desejássemos… era mais fácil!); também não se deixa capturar por equações ou algoritmos (por exemplo as mesmas situações podem provocar diferentes emoções em cada pessoa); para nos guiar através das emoções, não existem GPS`S, manuais de instruções ou livros de auto-ajuda (cada um terá de construir o seu próprio guia); por isso no mundo emocional, não há sempres nem nuncas…! Existem apenas emoções e sentimentos mais ou menos duradouros e muitas vezes imprevisíveis. É por isso que o estudo da consciência humana é uma das novas fronteiras da ciência.

As memórias sim, podem ser para sempre…  e com as mémorias, as emoções que elas despertam“sempre que me lembro disso, fico em sofrimento” (então não é sempre… é quando se lembra)… mas as memórias também podem ser traiçoeiras, porque ninguém se recorda das coisas como elas de facto aconteceram… o que guardamos são memórias associadas a determinados momentos, que foram impressas de acordo com aquilo a que demos atenção nesse preciso momento…  e é aqui que entram os «Sempres» e os «Nuncas»…

Por exemplo, se sinto que “sempre sofri”, aquilo que acontece (mesmo que positivo e agradável) é interpretado à luz desse sentimento cancerígeno (porque se alastra e cresce… para sempre…) se sinto que “nunca fui feliz…” as probabilidades de o vir a ser reduzem-se drasticamente… tudo o que acontece há-de ser interpretado de acordo com esta lógica selectiva e diminutivaporque se vai em busca da verdade que venha validar o “nunca hei-de ser feliz!!!”.

Este tipo de forma de estar/pensar/sentir, revela-se subtilmente quando por exemplo dizemos “tudo corre tão bem, que até tenho medo que acabe” (se tem medo que acabe, já acabouporque não está a viver o momento… se não o vive, não o saboreia… se não saboreia… não retira prazer… e por isso não grava esse acontecimento na memória em associação com sentimentos de felicidade… o que há-de ficar gravado será o medo e a desconfiança). No mundo do medo… tudo é medo… ou tudo é valorizado dessa forma… “agora sinto-me bem, mas tenho medo que aconteça alguma coisa” (dentro de si já está a acontecer… ao valorizar o medo já está a hipotecar as hipóteses de se sentir bem).

Sofrer a toda a hora… sempre… para sempre… existem pessoas que de facto se sentem assim (todos conhecemos pessoas destas); se é assim que se sentem, é porque têm motivo… e todos os sentimentos são válidos… no mundo emocional não há certos nem errados… há experiências individuais, muito próprias… e na verdade é isso de que é feita a nossa individualidade.

Apesar disso, no puzzle emocional, sentimental e comportamental é possível fazer alterações às peças, dar-lhes outra cor, fazer com que encaixem de forma mais suave, que não dói tanto… se somos o que vivemos, e se o que vivemos está associado ao que sentimos… se o que sentimos associado ao que interpretámos… então se for possível mudar a interpretação das vivências individuais, transformando os sempres em… por vezes… em determinadas alturas existiram coisas ou pessoas que que fizeram sofrer… ou então, se calhar interpretei as coisas e as pessoas de forma errada…. E foi isso que me fez sofrer.

Sempre… quando pensamos assim, vivemos numa lógica ilusória e enganadora… a lógica do nuncasempre fui infeliz (nunca se sentiu feliz?)… sempre me senti bem…( nunca, em momento algum, se sentiu mal?).

 

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

                                                                     Fernando Pessoa

 

Todos podemos e conseguimos mudar. O que acontece é que existem pessoas que tiveram experiências e vivenciaram coisas de tal forma negativas e (por isso mesmo) impactantes do ponto de vista emocional, que condicionaram o seu aparelho cognitivo de forma que acreditam ter ficado incapacitados (diminuídos) para sempre… e portanto sentem que nunca mais irão recuperar, nunca mais irão esquecer (“isso é um coisa que me lembro a toda a hora…”), nunca mais irão conseguir perdoar (se), irão sofrer sempre… para sempre! (quando acreditamos nisto, esta verdade passa a ser o filtro com que analisamos o Mundo e o que nos acontece).

Quando nascemos, trazemos equipamentos emocionais que nos permitem experimentar todas as gamas de vivências emocionais (nunca ninguém explicou a um bébé que o sorriso da mãe é um gesto afectuosol e carinhoso, mas ele no entanto sabe apreciar isso de forma intuitiva); salvo raras condições neurológicas ou fisiológicas nunca perdemos essa capacidade.

Em virtude da cultura, da educação e da nossa personalidade, o que vamos fazendo é seleccionar ou valorizar apenas algumas coisas em detrimento de outras, através de processos conscientes e inconscientes intimamente ligados às emoções. A isso chama-se «percepção». É a nossa percepção individual das coisas que determina aquilo que iremos valorizar ou desvalorizar… esta percepção é adaptável, não é um processo rígido e imutável. Para que essa adaptação aconteça é preciso no entanto estarmos abertos e também preparados (disponíveis) para mudar a nossa percepção. Nem sempre será fácil, pode doer… pode gerar desequilíbrio e abalar as estruturas que acreditávamos estar certas e que de alguma forma nos davam uma certa segurança (mesmo que por vezes dolorosa ou ilusória).

Tenho a certeza que estar preparado e aberto para a mudança não é fácil, pode ser assustador, mas a recompensa é grande… é isso que nos permite não sofrer sempre… para sempre!

 

 

 

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365

 

4 Comments
  • Carlos Silva
    17 Maio, 2020 at 9:51

    Uma mais valia, ler os seus artigos, obrigado..

  • Adriana Relvas
    25 Maio, 2020 at 9:13

    Bom dia

    Grande artigo como sempre com a qualidade científica e humano que o caracterizam!! Obrigada por este texto nos fazer refletir ! Boa semana

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