É esta a minha filha???!!!

É esta a minha filha???!!!

Foi este o grito de desespero e revolta de uma mãe ao ser confrontada com os restos mortais da sua filha… como se naquele minuto estivessem representados todos os dias do mundo.

Agora existem apenas retratos e lembranças por toda a parte… retalhos da vida, e para além disso… Nada! O nada imenso em que alguns pais se afundam após a morte de um filho.

Dificilmente se aceita o que não se consegue conceber. É esta realidade com que a morte inesperada de alguém nos coloca cara a cara. A morte não nos ensina muito, a não ser o quão pesado e fragilizante pode ser o sofrimento mental. Transporta consigo uma estranha dor, que é dor de ausência (o que já não existe dói!), de perda, de ruptura; a dor que dói de tal forma que o vazio pode de repente ficar pleno de tudo… revela-se a dor mais insuportável de todas, uma dor que afinal são muitas dores ao mesmo tempo.

Preparámo-nos e fomos ensinados para viver o presente com base em possíveis amanhãs. Julgamos ter tudo planeado e previsto, como num roteiro de viagem. Isto tranquiliza-nos, como se tudo dependesse de nós e a viagem da vida tivesse um sentido superior. Preparámo-nos e estávamos confiantes que essa preparação nos tornava capazes. Num segundo essas certezas esfumam-se.

De entre todas, a perda de um filho revela-se como a mais tremenda de todas as torturas emocionais; as lógicas deixam de ter lógica, os projectos transformam-se em amorfos sem-sentidos, a vida revela-se agressiva e plena de brutalidade. Deve ser muito duro sobreviver assim, com o coração sepultado num lugar frio e escuro.

Ninguém está preparado para esta realidade, o desamparo deixa-nos perdidos, confusos, a sangrar. Perante a morte apenas sobrevivem as memórias, e tudo o que regressa da memória parece agora ter vida e voz própria.

Não existem manuais de instruções para atravessar os desertos emocionais provocados por esta perda. Ninguém sabe nada, ninguém consegue dizer nada, ninguém pode fazer nada. Só se pode ver!

Cada um destes desertos é único e um local labiríntico… os desafios que surgem são sempre individuais.

Afinal, o que fazer, quando toda a família fica de repente absorvida por um profundo Luto?

Os pais gritam amarrados entre si… há quem pareça reagir mais rápido, mas por vezes crescem ou agudizam-se as tensões entre o casal. Numa espécie de retirada do mundo, alguns destes casais em Luto comportam-se como se cada um dos seus membros fosse surdo-mudo perante o outro. É mesmo assim, porque o sofrimento é propriedade privada e por isso nem sempre entende as lógicas das outras dores.

Noutros casos, as perdas parecem aumentar cumplicidades pré-existente e o casal une-se na e através da dor, encontrando desta forma uma nova identidade conjunta…

O que fazer perante o que é esperado pelos outros? (parece proibido ou censurável sorrir de felicidade momentânea). As pequenas felicidades passam a ser tabu, como se pairasse uma sensação que se estás a ser julgado, apenas porque o crime é sorrir ocasionalmente, apesar de se ter perdido um filho.

Seja qual for o caso, a vida passa a ser vivida numa espécie de «como se», ora como se nada tivesse acontecido (esforço para manter o filho vivo), ora como se o futuro fosse uma impossibilidade (morrer com a morte do filho).

Mas, por muito que doa, tem de haver um momento em que se deixa partir, em que as memórias passam a ser apenas isso… memórias que lentamente perdem a força da sua voz, a nitidez da sua imagem. Chegou o momento em que o «como se», se transforma num «agora é»… este passa a ser o momento de aceitação, a  que cada um chega ao seu ritmo, e seguindo pelo trajecto que lhe parece mais seguro.

Estes pais avançam, com medo e angústia, tacteando o seu regresso subtil do mundo dos mortos. Nem sempre regressam ao mesmo tempo; para quem chega primeiro, apesar das aparências, nem sempre a viagem foi mais tranquila. Não é preciso sentir-se culpado. Para sair do sofrimento não existem limites de velocidade.

Para quem demora mais ou ainda não regressou, nem sempre é fácil aceitar que o outro já tenha atravessado o deserto, mas é mesmo assim. A natureza de cada um há-de definir de que forma e a que velocidade se faz a travessia; não existem certos nem errados, até porque o que sentimos está sempre certo!

Com a aceitação da realidade, chega o momento de deixar ir. Não adianta tentar fazê-lo antes nem depois. Este não é um processo lógico nem matemático. São as emoções que estão no comando, definem e orientam o processo.

Deixar ir não significa dizer adeus, significa viver com e apesar de…

No decorrer deste processo irão acontecer transformações fabulosas, quase nunca se sai do deserto da mesma forma que se entrou. Restarão memórias, únicas linhas que unem para sempre 2 vidas que se cruzaram.

Nunca mais se tem acesso a quem morre. Já não existe a sua voz. Quando se aceita que acabou, a vida que existiu transforma-se num eco… é isso que resta dos outros em nós.

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365

 

1 Comment
  • Tiffany
    27 Julho, 2021 at 5:09

    blogue fantástico e excelente. Eu realmente quero agradecer, por nos dar muito melhores
    detalhes.

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