Demais…. de menos!

Demais…. de menos!

Há uma sensação de desencantamento com o Mundo, como um Olhar, uma linha que une todos os pontos e pessoas… como se andássemos todos vazios e repletos ao mesmo tempo… vazios de Nós, repletos de procuras, de desejos, ambições e necessidades que tentamos preencher (“parece que nada me satisfaz…”; “tenho tudo mas sinto que não tenho nada”… será que tem o que deseja/necessita ou aquilo que realmente é bom e saudável para si?). Para entreter este Vazio fingimos andar demasiado tão ocupados que nem temos tempo para reparar nele…Estamos tão repletos e ocupados que às vezes até nos sentimos vazios!

No entanto, o Universo  (com as suas leis físicas e algoritmos) não se coaduna com as nossas vontades e segue indiferente o seu trajecto, sem se preocupar com o que desejamos ou necessitamos. Por isso, quando não nos adaptamos às suas lógicas de funcionamento, sentimo-nos perdidos, sem um sentido que sirva de farol à nossa existência. Assim, a maioria de nós, sabiamente, procura que aquilo que se convencionou chamar «Personalidade» se adapte o mas equilibradamente possível às diferentes circunstâncias. Dessa forma conseguimos concretizar aquilo que pensamos ser adequado a nós.

Existe no entanto um campo muito próprio e deveras complexo das nossas vidas, onde por vezes nada parece ser lógico, satisfatório ou ter solução. Nas relações amorosas… o que conta? Somos nós, são os outros…? Ou será esse Nós, maior que Tu e Eu? (faço tudo e não recebo nada… será dependência?)

Será que o Nós pesa mais do que Eu, já demasiado ocupado em busca do seu próprio sentido? (“pensar em mim é egoísmo?).

Como um navio com um rombo no casco, há relações que vão metendo água, primeiro subtil e lentamente, depois cada vez com maior intensidade; Começam assim a inclinar-se, a pender mais para um dos lados; do outro lado alguém tenta a todo o custo que o navio não se afunde, ecoando sofregamente a água que vai entrando. Tenta cada vez com maior força e desespero (será que a culpa é minha?)… por vezes, com o desespero de escoar a água, nem se apercebe que o navio já está irremediavelmente perdido e que o mais sensato seria usar o bote salva-vidas para se colocar em segurança… (“o que vai ser de mim sem esta relação?… eu dei tudo, não recebi nada! Não será mais feliz fora dessa relação?”).

Para os desencantados (des-iludidos), desamparados, vítimas do (des)amor (por vezes desde a infância), as relações amorosas poder ser território armadilhado, onde o perigo de implosão está sempre à espreita (desespero, desamparo, solidão, abandono). São normalmente pessoas que dão tudo de si a alguém (ficando com pouco para si mesmo), que entregam o sentido da sua existência ao Outro (a um alheio), que ficam dependentes (não do Outro, mas dos seus próprios medos e necessidades).

Como se… só o Outro conseguisse dar sentido aos seus próprios limites e tragédias da identidade individual. Também aqui espreitam perigos… como se a solução encontrada no Outro, passasse a ser o verdadeiro significado da vida (“ele/a é tudo para mim”).

Apesar disso, há dependências boas (por exemplo quando uma criança está dependente de uns pais suficientemente bons); não há nada de errado em precisar dos outros, em precisar que cuidem de nós e nos amparem. Ou até que nos adoptem no nosso sofrimento.

Há dependências saudáveis, quando nos tornam mais fortes e mais capazes, mais seguros… são estas, que apesar de serem dependências, nos tornam também mais autónomos.

Só que no campo das relações amorosas não existem fórmulas de sucesso ou felicidade, manuais de auto-ajuda nem pessoas take-away… tudo tem de ser construído com paciência e ponderação.

É precisamente aqui que podem surgir dependências não saudáveis, principalmente porque nos anulam, nos esvaem daquilo que nos poderia tornar melhores, nos fazem sentir/ser impotentes (“não há nada que eu faça que pareça ser suficiente… se calhar sou defeituoso/a…?”).

Existe quem se acomode a esta forma de dar sentido à sua existência (“se me deixar ficar dependente, vou ser valorizado”, pensam)… há formas de estar, pensar e falar acerca de nós mesmos que são verdadeiras auto-mutilações.

No entanto, a lucidez consiste também em perder a esperança e parar de juntar papéis em branco para que os outros possam escrever com a sua própria caligrafia. Quando se diz basta, já chega (de me anular nesta dependência emocional), abrem-se portas de acesso a outras formas de estar com e perante o Outro… assim se deixa de ter demais de menos…!

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365

 

2 Comments
  • Alice
    7 Janeiro, 2021 at 8:12

    Gostei muito. É isto mesmo que acontece.

  • António Oliveira
    28 Janeiro, 2021 at 12:44

    Muito bom.

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