A capacidade de adaptação perante as dificuldades…

A capacidade de adaptação perante as dificuldades…

A adversidade desperta em nós capacidades, que noutras

circunstâncias ficariam adormecidas.

(Horácio)

 

Milhões de anos de evolução deram origem aos Seres humanos actuais, organismos altamente complexos, capazes de ler, escrever, fazer raciocínios matemáticos, pensar, comunicar, produzir arte, entender as leis da Física e do funcionamento do Universo… parece simples, mas não é… foi um projecto que demorou milhões de anos a ser concluído! Foram essas capacidades que nos permitiram evoluir, fazer chegar objectos a outros planetas, produzir medicamentos e máquinas… tudo isso é fabuloso, mas a competência mais fabulosa de todas é a que nos permite sobreviver, escapando de situações difíceis e enfrentar obstáculos: a capacidade de adaptação. é essa capacidade que nos permite sair mais fortes depois das situações difíceis.

 Na nossa vida as adversidades são inevitáveis; existe até quem defenda que as adversidades são essenciais para o crescimento. A maioria de nós vive pelo menos um acontecimento potencialmente traumático durante o ciclo de vida, e neste caso, a situação pandémica que vivemos confronta-nos (a todos sem excepção) com os medos mais profundos e secretos que se escondem por trás das defesas psicológicas, emocionais e comportamentais que habitualmente usamos no dia-a-dia.

Nestas situações são inevitáveis frustrações próprias e por vezes assustadoras, que nos tornam vulneráveis e frágeis, nos fazem sentir à mercê de algo que não controlamos e despertam velhas angústias e medos.

Como refere José Vicente Piqueras ″Um homem sozinho no meio da noite, assobia para amansar os monstros que o habitam.″

Perante uma situação destas, como reagir? O que fazer?

A forma como cada um reage perante as adversidades determina o grau de sucesso, de continuidade e estabilidade psicológica ao longo do tempo. Desta forma, a adaptação positiva a acontecimentos negativos e potencialmente traumáticos é fundamental para a manutenção do equilíbrio em todos os sentidos. É neste contextos dolorosos e difíceis que se têm vindo a aprofundar na Psicologia os estudos sobre aquilo a que se chama Resiliência Humana.

Como referem alguns autores, a necessidade de aprofundar a compreensão das habilidades psicológicas que utilizamos utilizam para enfrentar as dificuldades, tornando-os assim menos vulneráveis às consequências dos acontecimentos potencialmente negativos, tem levado ao desenvolvimento do estudo das variáveis mediadoras e promotoras de respostas positivas a acontecimentos potencialmente limitadores da nossa vida.

O conceito de resiliência começou por ser investigado com crianças que apesar de crescerem em contextos teoricamente desfavoráveis, eram capazes de superar os obstáculos e desenvolverem-se saudavelmente; quase como se tivessem uma espécie de imunidade.

Apesar do aparente paradoxo, a resiliência parece ser um fenómeno resultante de mecanismos básicos dos sistemas de adaptação do funcionamento humano (Mastens, 2001). Sempre que esses mecanismos se encontram funcionais e equilibrados, o desenvolvimento é robusto e adaptativo.

Assim sendo, as ameaças que podem por em causa a estabilidade de cada um, são aquelas dirigidas aos mecanismos de protecção e adaptação individuais. No caso desta Pandemia, a segurança física, económica, social e psicológica (por isso é tão assustadora, ameaçando pôr em causa tudo o que tentamos preservar) A resiliência não é pois um mecanismo em si mesmo. Refere-se a um conjunto de fenómenos que se pode caracterizar pelos bons resultados, apesar das ameaças ao equilíbrio e à adaptação que possam existir. 

Só poderemos abordar a resiliência se a analisarmos partindo de 2 conceitos fundamentais:

  • Adversidade;
  • Adaptação positiva;

Por adversidade deve-se entender qualquer tipo de stressor ou circunstância de vida negativa, que possa ser percebidos como uma ameaça à forma como estamos habituados a encarar a vida. Os stressores podem ser de natureza pessoal (família, acontecimentos de vida, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, doenças) ou de natureza organizacional ou social (tipo de trabalho, coesão social, aspectos logísticos, ambiente, aspectos directamente ligados à nossa capacidade de estar em sociedade),

A adaptação positiva refere-se à competência manifesta ou ao sucesso obtido nas tarefas específicas próprias do desenvolvimento ou de determinados contextos. Esta adaptação depende dos factores de protecção, da vulnerabilidade, e do risco envolvido.

Entendem-se por factores de protecção aqueles que podem melhorar, modificar, ou alterar a reacção de alguém perante determinado factor ou acontecimento que potencialmente produziriam resultados negativos (Rutter, 1985). Dentre os factores de protecção destacam-se a personalidade baseada no optimismo, a motivação, a confiança, a concentração e percepção de suporte social.

Em suma, das várias abordagens existentes sobre a resiliência, podemos concluir que a resiliência é um conjunto de factores que promovem a adaptação dos indivíduos de forma a protegê-los dos resultados negativos associados a determinados eventos exteriores potencialmente ameaçadores.

 A resiliência depende de factores individuais, familiares e do ambiente sócio-cultural. Relaciona-se com perfis de personalidade equilibrados e saudáveis psicologicamente, e com pessoas mais flexíveis e capazes de adequar as suas respostas afectivas e físicas às mudanças do meio envolvente.

  • Entender as dificuldades como oportunidades de desenvolvimento pessoal e de atingir a mestria.
  • Procurar desenvolvimento pessoal em várias áreas da sua vida.
  • Procurar manter uma atitude optimista e baseada na definição de objectivos desafiantes.
  • Ter várias fontes promotoras de confiança e segurança.
  • Focar-se nos factores que podem controlar (por exemplo se estamos impedidos de sair, procuremos alternativas que nos satisfaçam em casa).
  • Atribuir os sucessos e os fracassos a factores que dependem de nós e que possam por isso ser alterados.

A capacidade de transformar os obstáculos e as adversidades em experiências promotoras de aprendizagem e crescimento individual e colectivo é um dos factores de sucesso a longo prazo e deve ser trabalhada por todos, quer individualmente quer enquanto sociedade.

Esta é uma altura complicada, que nos gera medo, desespero e impotência. Mas se nos focarmos nestes aspectos negativos, estaremos a enfatizar ainda mais as nossas fragilidades e fraquezas, e isso por si só já é uma grande Pandemia de emoções, pensamentos e comportamentos negativos e destrutivos.

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365

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