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O medo nunca se cansa…

O medo nunca está no perigo, mas em nós

Stendhal

 

O medo é uma experiência universal, transversal a todas as pessoas e culturas e desempenha até um papel fundamental na nossa sobrevivência. Provavelmente, se nunca sentíssemos uma certa dose de medo (aquela dose que na medida certa até protege), acabaríamos por cometer mais erros ou em última análise até poderíamos nem sobreviver. A esta dose de medo protectora chama-se prudência. No entanto, prudência em excesso gera dependência, daquele tipo de dependência que não é positiva nem promotora de crescimento. Quando ficamos dependentes do medo para nos protegermos, na realidade não nos estamos a proteger mas sim a esconder. “Toda a minha vida senti medo de alguma coisa…”; “o que eu faço a maioria das vezes é fugir e evitar as coisas”;  “Parece que o medo me persegue…”; “Tenho medo de tudo e mais alguma coisa…” (será que esse mais alguma coisa é algo que a sua cabeça está a criar?).

Pensemos nas crianças… normalmente passam por uma fase em que têm medo do escuro; quando os pais acendem a luz do quarto, quase por magia o medo desaparece (mas desapareceu porque a luz se acendeu ou porque sentiram o conforto e segurança da presença dos pais?). Mas será que têm mesmo medo do escuro? Ou terão medo do que imaginam que se esconde no escuro?

Tal como nas crianças, o medo nos adultos resulta muito mais daquilo que imaginam que é fonte de medo (quebra de uma relação, problemas no trabalho, início de um novo projecto, mudanças de vida, por exemplo). O problema é que nos escuros daquilo que nos gera medo, não se pode acender a luz como quando éramos crianças. A maioria de nós tenta por isso controlar o medo, procurando explicações lógicas e racionais (o medo é uma experiência emocional, não se resolve só com a lógica), tentando desta forma prever o futuro (se souber o que vai acontecer não tem motivos para ter medo); isto dá-nos a sensação de controle e esta sensação alivia-nos (mas não resolve) a angústia gerada pelo medo.

Por outro lado existem aqueles que, perante o medo tentam ficar quietinhos, de preferência imóveis, para não fazer barulho (assim o medo não os descobre, imaginam); “Perante esta situação prefiro não fazer nada”; “Não quero arranjar problemas”; “Eu nesta situação já sei com o que conto, se mudar não sei se vou para melhor ou pior”.

Os medos dos adultos normalmente chamam-se ansiedade (o medo e a ansiedade têm na sua base o mesmo mecanismo fisiológico). Perante a ansiedade grande parte de nós apressa-se a fugir. Evita fazer coisas, estar com pessoas, ou adia decisões, imaginando que os sintomas de ansiedade o vão fazer perder o controle, enlouquecer ou morrer. “quando estou no meio de muitas pessoas fico ansioso” (mas fica ansioso em virtude do número de pessoas , ou daquilo que imagina que essas pessoas possam estar a pensar ou analisar a seu respeito?); “Quando entro num local onde nunca estive, tenho sempre de perceber onde é a saída” (ter o controlo da saída permite apenas fugir da ansiedade/medo, não resolvê-la). “Quando vou para uma situação nova, fico ansioso” (Não conhecer as coisas implica que não se possa prever o que vai acontecer, logo não é a situação em si que mete medo, á a ausência de controle sobre as coisas que de facto gera medo); “Este é o emprego dos meus sonhos, mas estou com medo de começar” (o emprego mete medo? Ou tem medo de falhar no emprego de sonho… de não estar à altura? De nunca conseguir ser a pessoa que sonhou?)

O bicho papão da maioria das pessoas… é o desconhecido! O desconhecido é um lugar escuro, vazio, como um abismo ao qual não se vê o fim… como o desconhecido mete muito medo, há pessoas que preferem ficar naquilo que já conhecem (está a doer… mas vou ficar… não vá do outro lado doer ainda mais!), impedindo-se assim de conhecer o desconhecido… e ver que às tantas não havia motivo para ter medo, não havia motivo para fugir, não havia motivo para se esconder, nem havia motivo para perder tanto tempo e sofrer um desgaste emocional tão forte.

Fugir do medo é uma estratégia habitual… mas proporciona apenas alívio momentâneo… o medo há-de voltar, cada vez mais forte, mais manhoso e insidioso. Pode continuar a fugir a vida toda e assim continuar a iludir-se com a falsa suposição que ao fugir é você que controla o medo; poder fugir pode, mas na verdade, enquanto fugir, é o medo que está no controle (é você que continua a fugir e não o medo… já reparou?).

Fugir tem perna curta… enquanto foge gasta a sua energia, uma vezes toma decisões de forma precipitada, outras não toma decisões que seria importante tomar.  Cansa-se e há-de cansar-se cada vez mais. Enquanto isso o medo continua lá, cada vez mais forte, porque o medo nunca se cansa… e enquanto nós fugimos… é dessa fuga que ele se alimenta e fica mais forte.

Enquanto foge, não faz o que tem de ser feito. Aceitar que se tem medo, perceber que o medo está dentro de nós e não fora de nós (por isso não adianta fugir), perceber do que se tem medo na realidade, e encontrar estratégias que permitam confrontar o medo. Assim, o medo deixa de ser medo, passa a ser uma coisa concreta, que nós conhecemos… e como conhecemos, podemos enfrentá-lo… porque agora sim, somos nós que estamos a controlar o medo!  

 

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365