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Sofro porque tenho medo de sofrer

Sofrer passa,

Mas ter sofrido não passa jamais

Léon Bloy

 

“Sofrer” é apenas uma palavra. Mas há palavras capazes de despertar memórias e emoções dolorosas. Pense na última situação que o fez sofrer física ou psicologicamente… o que sentiu? O que fez? Como resolveu?

Quando sofremos fisicamente (por exemplo, quando dói uma parte do corpo) rapidamente procuramos alívio para a dor. Curiosamente quando o sofrimento é de natureza emocional ou psicológica nem sempre procuramos soluções de forma tão rápida e diligente, há-de passar…“. Isto acontece porque achamos que este tipo de sofrimento é suportável, “custa um bocado, mas vivo bem com isto…”. Se parar e verificar na memória, vai ver… de certeza já usou este tipo de lógicas. O que talvez não tenha reparado é que a maioria das vezes que o fez, fê-lo porque teve medo…

Quando somos confrontados com algo que nos faz sofrer emocionalmente, ficamos confusos, às vezes até bloqueados…o que será que fiz errado?”, “será que é normal?”, “os outros também passam por isto?”, “como é que eu vou dar a volta?”… Sim, todos por vezes sofremos… é universal… é intemporal… é habitual… mas não deveria ser normal deixarmo-nos ficar e sofrer (é aqui que entra o medo).

O medo, enquanto reacção perante o sofrimento, usa muitas máscaras; Às vezes ficamos em silêncio, “não quero preocupar os outros” (mas se ficar em silêncio, corre o risco de não ser socorrido; por outro lado, quando os outros não sabem porque sofremos, ficam ainda mais preocupados), “eu consigo resolver isto sozinho” (a solidão torna-nos mais frágeis), “ninguém me entende, ninguém me consegue ajudar” (quando diz ou pensa isto, está apenas a defender-se do medo de se abrir para os outros… não está a dar oportunidade aos outros de o ajudarem… será que você entende e assume o seu sofrimento?), “isto é um problema só meu!” (até pode ser só seu, mas será que merece aplicar um castigo a si mesmo, isolando-se na tentativa de resolver as coisas? Pedir ajuda não é sinal de fragilidade, até os soldados mais corajosos no campo de batalha necessitam dos seus camaradas).

Estas reacções perante o sofrimento têm um denominador comum: o medo. Todos temos medo de sofrer. Quando estamos com medo o que fazemos? Defendemo-nos. É aqui que muitas vezes entram em campo as peças mais poderosas para a manutenção do sofrimento: o silêncio, o isolamento, a fuga, os hábitos destrutivos (comer ou beber em excesso, usar drogas), a passividade. Até porque enfrentar o sofrimento, muitas vezes faz sofrer. Por isso tenho constatado que há pessoas que sofrem porque têm medo de sofrer! Têm medo de enfrentar o sofrimento porque deste lado, já sabem com o que contam… do outro lado só sabem que existe o desconhecido (há que fugir, não vá doer mais). Na dúvida ficam nos territórios emocionais que já conhecem (mesmo que faça doer), “mudar para quê, se ninguém me garante que vou deixar de sofrer?”. De facto não há garantias, mas se não mudar, nada muda…

Imagine que o sofrimento é uma semente… se a deixar prosperar, não tarda nada ela desenvolve-se… se continuar sem nada fazer ela cresce… depois dará frutos… que amadurecem e darão novas sementes… em pouco tempo propaga-se e terá a sua pequena plantação de sofrimentos que o impedirão de ser feliz. Começará a sentir o peso da infelicidade e do sofrimento (no início era só uma semente, lembra-se?) que em pouco tempo tomará conta de todos os aspectos da vida (às vezes quando se dá conta, a dimensão é tão grande que se sente perdido e desesperado).

Quando nada fazemos perante o medo, ficamos na dúvida, “se eu tivesse feito alguma coisa antes, será que teria sido diferente?”. O problema é que ficar na dúvida cansa mais do que ter a certeza (mesmo que sejam certezas que não nos agradem), e com o tempo esse cansaço acaba por nos fazer desistir… de ter as certezas.

Torna-se por isso fundamental que a nossa reacção ao sofrimento emocional seja rápida e eficaz. Dar nome ao sofrimento, pensá-lo e verbalizá-lo (as palavras têm uma função: simbolizar o pensamento, descodificá-lo), reunir aliados (familiares, amigos, profissionais qualificados) e encontrar formas de enfrentar o sofrimento que se esconde subtilmente por detrás do medo de sofrer. Desta forma, sentimo-nos mais fortes, corajosos, amparados e esperançosos.

A passividade perante os aspectos emocionais dolorosos, faz com que eles se perpetuem e agravem. Esta via faz com que o sofrimento seja como uma cratera para sempre vincada na nossa forma de ser e de estar. Por outro lado, lutar e agir contra o sofrimento, pode até doer, pode ser cansativo e desgastante (conhecer quem somos de verdade até pode às vezes ser uma desilusão), mas é com certeza a única estratégia eficaz e promotora de felicidade e sucesso. Assim, no futuro não terá de olhar para trás e dizer/pensar “eu deveria ter feito isto”.      

 

 

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365