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Manter o equilíbrio do desequilíbrio

 

“Sonhar o sonho impossível,

sofrer a angústia implacável,

pisar onde os bravos não ousam,

reparar o mal irreparável(…),

tentar quando as forças se esvaem,

alcançar a estrela invisível,

essa é a minha busca.”

Dom quixote de La Mancha

 

Pense naquele assunto ou problema que anda há muito para resolver

Agora imagine como poderia ser a sua vida se já o tivesse resolvido

Todos temos problemas ou assuntos dos quais não gostamos de falar (fugimos) ou com os quais não nos queremos confrontar (nem no pensamento); “não me obriguem a pensar nisso”, “Nem vale a pena falar disso…”; “Tenho medo de tocar nesse assunto”; “Eu sei que isso me faz sofrer, mas para resolver, tinha de mudar a vida toda”.

Vamos assim engolindo o incómodo, calando (e portanto aumentando) o sofrimento, as mágoas, raivas, ressentimentos, as angústias ou os passados mal resolvidos (factualmente, o passado está sempre resolvido… apenas emocionalmente pode estar por resolver).

Calar, aguentar e deixar doer! É esta a estratégia preferida dos “Super-homens/mulheres” emocionais, que se julgam capazes de suportar todos os sofrimentos sozinhos, “Não falo disto com ninguém, eu consigo suportar e resolver sozinho”; “Ninguém me entende…”; “falar para quê, se não me tira a dor nem resolve os meus problemas”; “não confio em ninguém para falar disto” (porque estar dependente emocionalmente de alguém pode ser assustador).

Hoje é dia 3 de Fevereiro de 2019… se não o fizermos hoje, nunca mais vamos ter oportunidade de viver este dia de forma agradável e saudável (física e psicologicamente). Mas, para alguns de nós este é apenas mais um dia para tudo se manter tal como está (mesmo que esteja mal), porque assim parece tudo estável, organizado e equilibrado, “pelo menos, mesmo que eu saiba que devia mudar, mesmo que doa e faça sofrer, eu já sei com o que conto”. Parece estável e equilibrado… mas não está! Caso contrário não seria motivo de sofrimento.

Esta é uma das estratégias de vida/defesa adoptada pelas pessoas que se sentem inseguras, impotentes e com medo (mudar, mesmo que teoricamente para melhor, faz sofrer, e portanto é gerador de medo). É uma estratégia que costumo chamar de «Manter o equilíbrio do desequilíbrio»… sabemos e sentimos interiormente que não está tudo bem, que é preciso agir e mudar, mas continuamos como se no fundo nada precisasse de ser alterado, e portanto nada se altera (apesar de interiormente continuarmos a reclamar da vida e das suas vicissitudes).

Por trás da “máscara” de força, firmeza e segurança (“eu aguentei isto muitos anos sem reclamar!”), está muitas vezes o seu oposto… o medo, a impotência e o desamparo, que fazem com que nem sempre se consiga reagir, apenas porque não temos coragem de abordar uma pessoa, um problema ou um sentimento doloroso.

Por um lado, se o problema parece complicado, temos tendência a buscar resoluções complexas (que assustam), mas às vezes até ficamos surpreendidos de quão fácil era a resolução. Pense por exemplo como uma simples gota de água pode fazer parar um mecanismo electrónico altamente sofisticado.

Por outro lado se o problema acarreta muita dor emocional, mesmo que pareça de simples resolução, temos tendência a achar que não pode ser assim tão simples (ou seja, muitas vezes quem complica o problema são os nossos pensamentos).

Mudar dói! É inevitável. Mas para alguns, o medo fá-los pensar e aceitar (este é o verdadeiro problema), que mudar dói mais do que suportar o sofrimento de não mudar!. E com este pensamento contagioso (porque contamina todos os outros pensamentos) lá continuam de forma persistente e laboriosa (mas dolorosamente) na sua difícil tarefa de manter o equilíbrio, apesar dum desequilíbrio na forma de estar na vida, que inevitavelmente os conduz a um desvio daquilo que realmente são e desejariam ser, e que portanto acaba por os fazer sofrer mais do que a dor de mudar, que tanto tentaram evitar!

Por isso muitas vezes, quando pensamos “Deixei de me sentir feliz quando aconteceu isto…”, a verdadeira questão transformadora deva ser “Como posso voltar a sentir-me bem, realizado e feliz, apesar de ter acontecido isto…?”.

 

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Psicólogo do Desporto

Cédula profissional O.P.P 4365