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Fazer a vontade à vontade…

“Já tentei mudar várias vezes mas não consigo”; “a partir do dia x vou começar a dieta”; “não me peçam para fazer isso que não sou capaz”; “nunca experimentei, mas acho que se fizer isso vou ter medo”; “tenho medo daquilo que os outros vão pensar se eu fizer isso, portanto nunca fiz”; “já pensei nisso várias vezes, mas nunca tomei a iniciativa”. Por certo já todos usámos este tipo de frases como justificação para o que não queremos, achamos que não conseguimos, ou simplesmente não nos apetece fazer.

Fazer a vontade à vontade, ou seja, permanecer refém dos nossos impulsos defensivos, dos nossos hábitos emocionalmente confortáveis (mas por vezes prejudiciais) ou dos nossos medos, é uma forma de auto-condicionamento poderosa, que se vai instalando de forma subtil e muitas vezes silenciosa; quando nos damos conta, torna-se bastante doloroso reagir, exige tempo e uma boa dose de energia e disponibilidade emocional; “já sou assim há tanto tempo, agora acho que não consigo mudar”; “toda a minha família tem problemas de excesso de peso, acho que não consigo ser de outra forma”.

Fazer a vontade à vontade implica muitas vezes desistir ou fugir de si mesmo, porque na verdade aquilo que nos pode fazer crescer e evoluir nem sempre fazia parte dos nossos planos racionais; é como se tivéssemos de instalar um novo software emocional e comportamental ao qual teremos de nos adaptar, com todos os receios e frustrações que isso pode implicar.

Aquilo que é a nossa vontade confunde-se largamente com os nossos desejos. O problema é que nem sempre aquilo que desejamos é na verdade bom para nós. Por exemplo, às vezes desejamos ter um relacionamento com uma pessoa que não nos faz bem; ou por vezes desejamos ter comportamentos que não são bons para nós; também podemos desejar adiar tarefas que precisam de ser iniciadas ou terminadas.

Nem sempre é boa ideia fazer a vontade à vontade (ceder aos desejos). “Hoje não vou ao ginásio, não me apetece” (mas quando páro para pensar, afinal já não vou há 2 semanas)”. Isto porque, aquilo que desejamos (o que nos apetece), é muitas vezes sinónimo daquilo que vamos fazer para escapar ao medo ou ao esforço emocional que teremos de fazer para executar o que é melhor para nós (por exemplo terminar uma relação instável e dolorosa).

Quando fazer só o que apetece se transforma no modo de funcionamento habitual, ficamos prisioneiros de ciclos repetitivos (já pensou na quantidade de vezes que cometeu erros que disse que não voltaria a cometer?) que são paralisantes e impeditivos do crescimento pessoal e que, quando se instalam, são muito mais dolorosos e consomem muito mais energia do que aquela que seria necessária usar, caso não tivéssemos feito sempre a vontade à nossa vontade.

 

 

Rolando Andrade

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta

Cédula profissional O.P.P 4365